terça-feira, 28 de junho de 2011

Experiência molecular

A pneumonia não me deixou apenas dois meses de cama. Adiou por 60 dias minha primeira vez com Felipe Bronze e sua cozinha de inovações. Superei dois "preconceitos" de uma vez, digamos assim. Não sei bem o motivo, costumava questionar um pouco o chef garotão, adepto ao jiu-jitsu e que não parava muito tempo em seus restaurantes, apesar das estrelas ao redor de seu nome. Já a tal culinária molecular, praticada com maestria pelo jovem chef carioca, era algo que sequer entendia bem o que era - invencionice espanhola?

Desmarquei duas vezes mas, enfim, me sentei numa das mesas do Oro, no Jardim Botânico. Uma terça feira friorenta e de muito vento no Rio de Janeiro, que espanta os cariocas de qualquer atividade que não seja ficar em casa. No salão éramos eu, Pedro e mais uma mesa de seis. Dez funcionários cuidavam de nós, outros tantos na cozinha, sempre sob a batuta de Bronze, que estava ali em carne, osso e talento. Nosso "personal chef" naquela noite, praticamente.

O que podia ser meio deprê (o-dei-o restaurante vazio) foi uma noite memorável. A começar pela recepção de Cecília Aldaz, a sommeliere argentina, que me conquistou quando a conheci, no fim do ano passado, no evento Natal Bacana promovido pelos amigos Jean e Antônio, do Entretapas. Em meio às travessas de tapas e peru preparadas para crianças de um orfanato para meninos e meninas portadores de HIV, Cecília me falava que vinho bom não tinha que ser caro e que, em suas cartas, eram poucos os rótulos com cifras exorbitantes. E nem por isso menos bons. E o Clos de los Siete que escolhemos comprovou essa teoria.

Pedimos o menu degustação de sete pratos para passear um pouco pela arte de Bronze. Às cegas.

Os "snacks" - como são chamadas as pré-entradas - impressionaram, mas não encantaram. Bem apresentadíssimas e originais, mas não sei se foram servidas na temperatura certa (achei que estavam naquele nem frio, nem quente, como se tivessem ficado esperando no balcão já prontas. Pode ter sido só minha impressão). Um prato trazia profiteroles de queijos do Brasil e licuri (planta do cerrado), o outro era uma releitura do famoso pato no tucupi do norte em versão mais delicada.

Profiteroles de queijo do Brasil com licuri (foto do site do Oro).
Aí começou a diversão para os sentidos.

A "caprese quente/fria", do Primeiro Ato, era assim: uma burrata levíssima no interior, envolvido por uma crosta de tomate. Na verdade, o tomate é desidratado, vira pó e é reconstituído depois. Uma calda saborosíssima de tomate e pesto de baru, quente, quando derramada por cima da capa que cobre o queijo, quebra a casca. Bem, eu que sou louca por queijo e tomate quase morri.

O meu favorito, sem dúvida, foi o foie gras com maracujá e granola, algo que nunca imaginei que fosse possível existir. O prato (nesse caso, a louça) me deixou louca de tão lindo que era - e acho, sim, que a beleza influi no paladar, na experiência de comer. Soube depois que todas são feitas na Europa e vëm por encomenda.

Meu favorito - foie gras com maracujá e granola. (foto do site do Oro)
Surgiu em seguida uma cavaquinha com beterraba e uma gordura de porco crocante que estava saborosa e muito bem feita, mas foi ofuscada pelo que experimentei antes e depois dela, coitada.

Pq brincadeira continua, ainda no Primeiro Ato, com o tartare de carne. Simples, né? Não. Primeiro pq é o melhor tartare que já comi na vida. E, segundo, pq ele vem tampado e, quando abre-se a tampa, levanta a fumaça de churrasco. Carne crua com cheiro de churrasco. Quem manda no seu paladar, afinal? Vc acredita no que vê ou sente?

Tartare com fumaça de churrasco, a "pegadinha" do Bronze. (foto do site do Oro)
E chega o Segundo Ato - a versão elegante, leve e plástica de Felipe Bronze para a carne seca com abóbora: os ingredientes de sempre, um sabor inigualável. Carne seca, abóbora crocante, farofa, cebola caramelizada e... manteiga em flocos.

Não sou uma chocólatra, pelo contrário. Me irrita até ganhar ovo de páscoa. O prato de sobremesas para compartilhar "Tudo Chocolate" - nome auto explicativo - foi o gran finale para, definitivamente, eu enterrar de uma vez por todas os tabus gastronômicos da minha vida: chocolate, Felipe Bronze e cozinha molecular.

A mousse crocante pelo nitrogênio. (foto do site do Oro)
Dentre as cinco ou seis receitas com cacau, a mais memorável foi a mousse de chocolate. Felipe Bronze veio à mesa pela segunda vez na noite apresentar, ele mesmo, seu truque. Claro que é um show "encomendado", mas faz parte. Pareceu espontâneo, pelo menos na nossa noite. Com um toque de nitrogênio, a mousse pastosa ganha uma camada crespa. Crocante por fora, cremosa por dentro.

Bronze estava na cozinha durante todo o tempo em que ficamos na casa (de 20:00-22:00) naquela terça banal e chuvosa, o que é elogiável. Um respeito aos clientes. Sua cozinha criativa, ousada, estudade e bem elaborada me marcou de verdade. Marcou cada uma de minhas moléculas, pq não dizer assim : ). Uma equipe impecável (a começar pelo simpático Raul, que comanda as reservas, passando pela Cecília, os garçons...) fez a casa vazia se encher de vida, com eficiência, simpatia e discrição. Mesmo quando faltou luz na rua toda, o clima continuou perfeito. Bronze deu uma corridinha ali na frente para emprestar uma lanterna ao vizinho e amigo Claude Troigros (minha próxima parada), super bacana, super humano.

Raul desce a escada assim que as luzes se apagam. É quando Bronze está com o nitrogênio na mão para preparar a mousse. "Tá vendo, Manoela, demorou tanto pra vir que faltou luz!", brinca Raul. "Vc é a famosa Manoela?", indaga, simpático, Felipe Bronze. Eu é que digo, Felipe: "Vc é o famoso Felipe Bronze? Muito prazer".

Comer: Oro, de Felipe Bronze. Rua Frei Leandro 20 - Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Recomenda-se reserva: reservas@ororestaurante.com / 21 2266-7591. Vai lá e depois me conta!


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