sábado, 21 de dezembro de 2013

Botafogo: de passagem a destino


Sempre morei em Botafogo. E sempre ouvi que "Botafogo é um bairro de passagem". Um caminho engarrafado de três longas e estreitas ruas entre a Baía de Guanabara e a Lagoa.

Para ir ao cinema eu partia para Copacabana ou Leblon. Para almoçar ou jantar pegava o carro para Ipanema ou Gávea. Mas pagava o IPTU de Botafogo.

Felizmente as coisas estão mudando. Meus amigos, quem diria, já vêm para Botafogo em busca de comida, diversão e arte. E, assim, eu passo numa boa, a pé, em frente à Operação Lei Seca do Humaitá! ; )

Os tradicionais Aurora e Botequim continuam firmes e fortes na Visconde Caravelas. Já viveram melhores dias, é verdade. Mas ganharam a companhia de alguns dos atuais carros-chefe da cena gastronômica carioca.

O Tragga, na Capitão Salomão, é um exemplo. Tem a adega mais linda que já vi. Serve carnes ótimas e uma cebola recheada que está entre meus acompanhamentos favoritos atualmente.

Ainda na Visconde Caravelas, antes da Capitão Salomão, tem aquela que considero, de verdade, a pizza mais gostosa do Rio (ah a de cebola roxa caramelizada com queijo de cabra... hummm!). Sem muito alarde, num espaço pequeno (ao lado do confuso I Piati, que se apresenta como restaurante japonês e italiano!!!) está a Eccellenza. Na mesma calçada fica o peruano Lima, com seu pisco sour fantástico e o trio de ceviches que me faz sair de casa até sob chuva.

Não, não acabou. Tem também meu delivery preferido na Nélson Mandela, o Orienthai, a quem volta e meia apelo para pedir um pad thai ou um murg tikka masala. Na Bambina conheci um italianinho charmoso e de comida bem feita, o Ricca Alegria. Sem falar do Harad, da Cobal do Humaitá, com um tabule quase igual ao da mamãe.

Mas é na Conde de Irajá que estão dois dos destaques dos críticos (e meus!): o Entretapas, dos queridíssimos Jean e Antônio, e o Irajá, do sempre inspirado Pedro de Artagão. São dois casarões restaurados do século XIX, cada um a seu estilo. No Entretapas, junto com uma fresquíssima jarra de sangria, me farto com a chistorra, as lulas, a pancetta, os huevos rottos... Já Pedro de Artagão assina um dos pratos mais surpreendentes que já provei: o falso toro (tartare de lombo de atum e foie gras). Me prometi que vou me entregar logo, logo, ao menu omakase dele, naquela mesa redonda linda diante da cozinha aberta.

Outro vizinho de cep é o Oui Oui, o primeiro na Conde de Irajá (sem contar, claro, China in Box e que tais). Só de pensar no cuscus de quiabo com frango e castanha do pará da Roberta Ciasca dá vontade de sair de casa correndo. Ainda mais lembrando que tem palito de tapioca com coco e doce de leite de sobremesa num dos ambientes mais agradáveis do Rio.

Por essas e outras que quando o paulistano Ken Mizumoto, do Shin Zushi, me perguntou onde abrir um restaurante no Rio eu respondi sem titubear: em Botafogo!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Na feira em Tóquio

Você pode já ter ido à Cobal, à CEAGESP, ao mercado Ver-o-Peso ou às fantásticas feiras livres de Paris e ao Borough Market, em Londres. Mesmo assim o Tsukiji, em Tóquio, te arrebata na hora.


Moças monocórdicas saudando os passantes numa voz quase infantil se misturam a samurais de faca na mão limpando e cortando peixes grandes e pequenos. Há barracas de facas, cerâmicas, utensílios; de algas, de peixes frescos e salgados. De repente surge um tempo, um restaurante aqui outro acolá. E, sim, um centro de informações (com mapa do lugar e souvenires), um espaço climatizado com bancos e geladeiras com bebidas para uma pausa entre a caminhada por vezes atordoante. E desfibriladores por toda parte.


Um misto de tradição e tremenda organização, onde turistas e japoneses dividem espaço com caminhões e carrinhos de carga e se acotovelam civilizadamente para comer um kani gigante grelhado na hora ou uma ostra na brasa. Regados a cerveja Asahi.


Todo dia (menos segundas), bem cedo, há o famoso leilão de peixes (incluindo – e principalmente – aqueles atuns enormes), do qual participam donos de restaurante dos quatro cantos do Japão. Nunca acompanhei (nem sei se é permitido), mas deve ser uma experiência e tanto.



Não tenho dicas do Tsukiji. Ou melhor, tenho uma: se tiver a sorte de estar por lá, perca-se. E descubra o Tsukiji.

Magnífico Sushi-Kan

Já disse aqui que considero o Shin Zushi o melhor restaurante japonês do Brasil. Da última vez em que estive sob os cuidados de Ken Mizumoto e sua equipe, já tinha no horizonte uma possível ida a Tóquio. “Ken, me indica um lugar para comer no Japão”, pedi achando que ele me mandaria para o badalado (e caríssimo) Jiro. “Toma. Pode falar em meu nome”, disse entregando o cartão em japonês, com um peixe na frente, onde a única coisa que dava para entender era o endereço do site – que, por sua vez, dava a pista do nome do lugar: Sushi-Kan.

Pois volto de Tóquio certa de que o Shin Zushi é, mesmo, o melhor do Brasil. Autêntico japonês. Fiel a suas origens, embora com personalidade própria. Espelho do magnífico Sushi-Kan.

Foi na casinha de dois andares numa rua tranquila em Meguro - não muito distante do agito de Shinjuku - que Ken e seu irmão Nobu lapidaram técnica, sensibilidade e conhecimento. Ken passou oito anos sob a batuta do itamae-san  (o sushi chef de quem eu, infelizmente, não sei como se escreve o nome!), que hoje orienta outro paulistano, o simpático Wallace Morita. Mais do que japonês, aprendeu a sorrir, entreter e cumprimentar seus convidados. Aprendeu a conhecer gostos a partir de reações, a educar o paladar de brasileiros e atender à expectativa dos japoneses. Conheceu o que o mar pode oferecer de melhor, a realçar cada sabor e valorizar cada textura.

Cheguei num sábado 20:30 ao balcão do Sushi-Kan. Tarde para os padrões locais, me disse Wallace. Enquanto arrumava a folha sobre a bancada e ajeitava, cuidadosamente, nabo, cenoura e algas num canto, e wasabi no outro, itamae-san gritou para a cozinha e, de repente, ouvi português no salão. Era seu assistente brasileiro, convocado para a função de intérprete da noite. Além de mim, apenas duas mesas terminavam a refeição. Em pouco tempo, tinha aquele lugar só pra mim.

Me entreguei ao omakase, a degustação criada na hora pelo itamae-san com o que há de mais fresco nas vitrines meticulosamente organizadas.

Foi um desfile do oceano: sardinha, enguia, ouriço, caranguejo de inverno – barriga, garra e ovas, com um molho cítrico que só existe no Sushi-Kan –, ostra no vapor, lula gigante, temaki de atum (nada a ver com “Konis” da vida), atum de todos os jeitos (um dele, de tão gordo, aceitava uma “bola de gude” de wasabi sem a gente nem sentir a ardência), peixe “yellow tail” e uma tal de kohada (nome em japonês) que foi a campeã disparado da noite. Alguns naturais, outros “aburi” (flambados). Invariavelmente já temperados com sal, limão, cebolinha ou shoyu, para brasileiro nenhum ter a tentação de afogá-los naquela piscina negra. Teve também pepino em conserva caseiro (gosto e croc-croc inigualáveis), pequeníssimas sardinhas fritas (que petisco!!!!), sopa de misô com vieiras desmanchando na boca e uma lasquinha de limão que fez toda a diferença. Ah, claro, e um chá verde delicioso para encerrar os trabalhos.

“Você quer provar a nossa omelete?”, pergunta o itamae-san ao final. “Sim, claro!”, respondo mais com os olhos e o coração do que com o estômago. “Acredito que Ken já tenha te apresentado a dele. Era o que melhor fazia isso aqui”, diz ele, saudoso, já saindo de trás do balcão e sugerindo tirarmos uma foto juntos. “Agora vc tem que mostrar ela pro Ken”.


Ainda de Tóquio, reservei o Shin Zushi para quinta-feira, quando estarei em SP.




sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Sushi em pé



Tóquio é uma das cidades mais incríveis que já visitei - embora nas três vezes que vim (sim, ainda estou no Japão!) tenha sobrado quase nenhum tempo para turismo. Não chega a ser um problema, já que para conhecer a cultura de um país vc não necessariamente precisa pegar um "hop on, hop of bus". Pelo contrário. Andando na rua, pegando metrô, participando de eventos, correndo (sempre!) e comendo (oba!), há tantas outras formas de se vivenciar a personalidade de um povo...

Ontem tive uma das experiências mais bacanas por aqui. Foi no Uogachi Nihonichi, um restaurante pequenino onde vc come sushi... em pé diante de um balcão. Quem me apresentou foi o Felipe Kitadai, da seleção brasileira de judô, motivo pelo qual volta e meia venho parar em Tóquio.


Fomos numa filial perto de nosso hotel (vi na internet, depois, que é uma rede com cerca de dez lojas pela cidade). O Uogachi Nihonichi é um dos raríssimos "standing sushi bar" com direito a lance no famoso leilão de peixes no mercado de Tsukiji. Ou seja, matéria prima mais fresca, impossível.

No pequeno balcão onde cabem não mais do que dez pessoas, éramos, claro, os três únicos não orientais diante de dois hábeis sushimens que, em inglês, sabiam no máximo sorrir, eu acho. Foi um passeio por tanta coisa maravilhosa: O-Toro vermelhíssimo, baby lulas, salmão no maçarico, cavala, camarão macio como nunca vi.



Os sushis são feitos na hora do pedido e colocados em cima de uma folha em duplas. Custam mais ou menos 150 Yens (cada dois). O que dá coisa de US$ 3.

O melhor é que dia 30 de cada mês mulher tem 30% de desconto. Acho que vou lá de novo hoje...

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Revista Época - O Melhor do Rio 2013-14. Sim, eu votei!


Desde pequena (ou nem tanto) leio com gosto as edições de premiação de restaurantes e bares das revistas semanais. Olho o nome dos jurados, as categorias, e faço a minha lista mental de vencedores. Chego a "discutir" com eles os votos. Esse ano, porém, a votação saiu da cabeça pro papel. Ou melhor: pras páginas.

Fui uma das sete convidadas pela RevistaÉpoca para apontar os melhores restaurantes em 23 categorias. O resultado saiu na edição especial que chegou às bancas na última semana de outubro.


Não preciso dizer que foi uma honra estar ali ao lado de tanta gente de bom gosto. Mais do que isso, foi um exercício legal pensar por que prefiro este àquele restaurante, o que me leva a determinado lugar (serviço, comida, ambiente...). O resultado geral vc pode conferir aqui no Blog do Pedro Landim, presidente do júri, digamos assim.

Visitei alguns novos, revisitei outros, resgatei na memória sabores e sensações. Foi um barato.

Cravei 18 dos 23 eleitos por um júri que fugiu do óbvio.

Meus escolhidos (vá lá, com algum pitaco do meu Pedro, não o Landim!) são:

Ambiente: Roberta Sudbrack, Oui Oui, Irajá Gastrô (Eleito: Entretapas)
Brasileiro: Aprazível, Barreado, Aconchego Carioca (Eleito: Aconchego Carioca)
Carne: Giuseppe Grill, Filé de Ouro, CT Boucherie (Eleito: Giuseppe Grill)
Carta de Vinhos: Giuseppe Grill, Botega Del Vino, Cavist (Eleito: Vieira Souto)
Cenário: Aprazível, Bar Urca, Barreado (Eleito: Aprazível)
Chef: Felipe Bronze, Roberta Sudbrack, Roberta Ciasca
Chinês: Primeira Pá, Chon Kou, Mr Lam
Contemporâneo: Oro, Roberta Sudbrack, Irajá Gastrô
Delivery: My Thai, Kotobuki, Gula Gula
Em hotel: Le Pré Catelan, Tereze, Alloro
Feijoada: Casa da Feijoada, Botequim, Feijoada da Portela
Francês: Olympe, Le Pré Catelan, L’Atelier du Cuisinier
Frutos do Mar: Bar Urca, Rio Minho, Bom Peixe (Mercado São Pedro)
Italiano: Artigianno, La Trattoria, Alloro
Japonês: Shin Miura, Azumi, Tenkai
Novidade: Mira, Ricca Alegria, Lima Restobar
Para ir com as crianças: Porcão, Gula Gula, Filé de Ouro
Pizzaria: Eccellenza, Braz, Stravaganze
Popular: Adega da Velha, Poleiro do Galeto, Caranguejo
Português: Antiquarius, Gruta de Santo Antônio, Adegão Português
Rodízio: Porcão, Fogo de Chão, Nik Sushi
Sobremesa: Gula Gula, Le Pré Catelan, Oui Oui
Vegetariano: Refeitório Orgânico, Verde Vida, Cria da Terra


Bom apetite!

Paris 2014


Numa dessas coincidências da vida, estava em Paris esse ano justamente no final de semana da Maratona. A Maratona dos meus sonhos. Já no sábado, véspera da prova, a sensação que eu tinha era de que todas as pessoas na rua iam participar da corrida. Menos eu. Um vaivém de gente de sacolas de lona e tênis coloridos que me deixou com friozinho na mão como se eu fosse largar junto.

No domingo acordei ao som de um “Allez, Allez” ao fundo. Botei a cara pra fora da janela e vi ali na esquina da Rue de Rivoli uma multidão ritmada. Era uma manhã deliciosa de outono e desci pra rua aplaudir a turma. Resultado? Meu domingo foi de caça aos corredores pelas margens do Sena e Champs Elisées.

Olhando aquilo entendi pq o querido Olivier Cozan sempre disse que era a prova mais bacana do mundo. Voltei pra casa determinada.

Pois anotem no caderninho: o número de peito 44743 tem dono em 2014.

Vou correr a Maratona de Paris abaixo de 4h. E depois me aposento.


Ou não.

Correr: Maratona de Paris 2014 - inscrições pelo site.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Subindo a serra fluminense: Corrêas e Mauá

Pedra do Açu, que inspira o nome da pousada.
No caminho para Mirantão.
Subi a serra por dois finais de semana seguidos para casamentos de amigos. Foi tão gostoso que quero dividir aqui um pouco das coisas bacanas que fiz (e ainda quero fazer) em Corrêas (Petrópolis, Itaipava, Araras...) e Mauá. Com esse friozinho...

Em Corrêas fiquei na deliciosa pousada Paraíso Açu. Acolhedora do primeiro ao último minuto. Fica a poucos metros do portão de entrada do Parque Nacional da Serra dos Órgãos (super conveniente para quem, como eu, adora caminhadas e cachoeiras). Fica distante do burburinho, mas de carro dá pra curtir os restaurantes da região (incluindo o Locanda Della Mimosa...).


A Paraíso Açu é comandada por mãe e filha, que fazem a gente se sentir em casa tamanha a gentileza. Café da manhã de fazenda, lareira no quarto, carta de vinho farta... trutas fresquintas, que viram ceviche... limão galego do pé, que vira caipirinha... horta no quintal. Piscina de água natural, sauna... cachorros dóceis reforçando o tom caseiro.


Foi a Marina (filha) quem deu a dica da Serra Wine Week, que acontece agora em setembro. Infelizmente não poderei ir esse ano, mas vontade não falta. Em novembro, a Paraíso Açu organiza um festival espanhol (com paella e degustação de vinhos). Tô nessa!

Atenção, apenas, a quem chegar de noite: o restaurante da pousada fecha cedo, assim como tudo nas redondezas. Coma antes ou leve guloseimas pra curtir diante da lareira.

Tá procurando paz? Mauá te espera.
Em Mauá não fiquei em pousada, mas sim na casa de amigos no Vale das Flores. Não ia a Mauá há pelo menos 15 anos. Que barato está aquilo! Bem cuidado, organizado, protegido... Sem lixo nem construções favelizadas. Corri todos os dias na estrada que leva a Mirantão (gracinha de cidade, olha a casa da foto aí embaixo). Tomei banho de rio e de cachoeira (na Prata, com direito a linguicinha e queijo coalho no boteco da entrada, com gente simpática e ambiente agradável). Foi de uma paz sem tamanho.



Ficam, então, as dicas e inspiração para viagens nesse gostoso inverno tropical.